Antes da androginia ter (de novo) passado a ser rigorosamente obrigatória nas referências sexualmente mais libertárias da pop, o refrão “Girls who are boys, who like boys to be girls, who do boys like they’re girls, who do girls like the’re boys, always should be someone you really love”, do mediterrânico “Girls and Boys”, funcionou, primeiro, como uma brisa de ar fresco no borolento aroma da brit-pop e, segundo, como saudável contraponto ao miserabilismo existencial que dominava o outro lado do atlântico.
Entre a glorificação e crucificação mediática - de início, soavam demasiado aos Small Faces, aos Kinks ou aos Who, para ser verdadeiramente levados a sério. Damon Albarn, Graham Cox, Alex James e Dave Rowntree decidiram-se por subverter as regras do jogo numa estratégia quintessencialmente inglesa e dispararam sobre si próprios.
Como uma “british invasion” apontada agora ao coração do Império, piscam os olhos ao glam sem se transformar nos Suede, actualizam a disfunção emocional suburbana sem copiar descaradamente os Smiths, produzem dos coros mais ingénuos do lado de cá do “Ob-La-Di, Ob-La-Da”, ridicularizando em definitivo os Oasis, e renovam a ambição civilizacional dos Jam sem despir um único fato de treino.
Raramente foi a aparente falta de criatividade tão emblemática. Super Furry Animals, Boo Radleys ou Supergrass teriam qulaquer coisa a acrescentar, mas Parklife fez tábua raza na idealização dos desejos britânicos dos anos 90, mesmo se os sons dos Stone Roses, Happy Mondeys ou Primal Scream ecoando ainda no horizonte sugerissem que poderia ser tarde de mais. Albarn, dos Gorilaz aos The God, The Bad & The Queen, continua a rir-se por último. 4.5/5
O único grupo português que reveste o fado com uma sonoridade contemporânea, mantendo a coerência e um interesse estético. Se não é o grupo de fados e guitarradas mais atípico de sempre, é a banda pop mais portuguesa da actualidade.
Uma personalidade musical lusa tão marcada que, para encontrarmos exemplos semelhantes no pop, teríamos de recuar aos casos de António Variações ou da Sétima Legião.
Mas como os tempos são outros, os ingredientes distanciam-nos. A Naifa é uma banda do Portugal que vivemos. 3.5/5
Nada acontece por acaso. Ainda os Kasabian mal tinham rompido nos topes britânicos, já a imprensa do país de David Beckham os havia comparado aos mancusianos Oasis. A associação era, afinal, menos precipitada do que parecia: com a banda de Liam e Noel Gallagher, os Kasabian (de Leicester) partilham uma muito inglesa vontade de juntar uma boa melodia pop a um olho negro; com os Oasis a bande de Serge Pizzorno (guitarra, teclados, voz) e Tom Meighan (voz) tem em comum uma não menos britânica tendência para o impropério, disparando em toda a linha contra a concorrência alegadamente menos habilitada para o domínio da arte pop/rock.
A propensão para a provocação começa logo na pia baptismal: Kasabian provém de Linda Kasabian, elemento do culto de Charles manson, nota de rodapé manchada a sangue na viragem dos anos 60 para os 70 - a "familia" Manson foi responsável pelo assassinato de Sharon Tate, companheira do realizador Roman Polanski, nos idos de 1969.
O "killer instinct" é, nos Kasabian, um cartão de visita ainda que, para sossego dos paramédicos, o canalizem para crimes um pouco mais higiénicos: o rock'n'roll desbragado, electronicamente comandado pelos Primal Scream do início dos anos 90 e com a energia florida, quimicamente assistida, dos Stone Roses. Coisa, afinal, para acabar com a inércia nos túmulos.
Kasabian, o primeiro albúm, ofereceu ao mundo várias razões para dançar: "Reason is Treason" "L.S.F. (Lost Souls Forever)" e "Processed Beats" conjugam alta velocidade à beira da colisão e fervilhar rock digital. Três anos e uma digressão com os Oasis depois, os Kasabian sobem a parada: empire aspira ao topo, a partir o qual se desmoronam guitarras condensadas, torrentes de elctrónica febril e litros de suor. Para não deslustrar uma boa crise familiar, saiu o guitarrista (Chris Karloff) e chamaram-se nomes aos outros: Julian Casablancas é um «esquiador "bem"»; Pete Doherty é uma "rameira dos diabos"; os My Chemical Romance "deviam sair mais vezes"; Justin Timberlake não passa de "um fantoche num fato caro". Vão ser grandes! 3.5/5
Com o primeiro álbum, os Linda Martini correspondem às expectativas criadas pelo EP e pelos concertos.
Está aqui "Amor Combate", a pedra de toque da banda, mas também um conjunto de temas que em nada ficam atrás daquele improvável hit. "Dá-me a Tua Melhor Faca", "Estuque" ou "Cronófago" mostram os LM a percorrer com segurança um caminho sempre rock, evitando atalhos desnecessários mas criando, ao mesmo tempo, estruturas criativas e pouco lineares.
A passagem entre músicas faz-se sem delongas, o que contribui para a dinâmica do disco, aproximando-o da energia dos concertos. Mais evocativas do que narrativas, as letras continuarão a ser entoadas por jovens de franja perto de si. 3.5/5
Com o seu quinto álbum de originais, “Odditorium or Warlords From Mars”, é mais difícil do que nunca levar a banda a sério, pois é o seu trabalho mais desinspirado e coloca em causa uma discografia que, embora algo irregular, nunca tinha deixado de ser estimulante.
Se nos registos anteriores os Dandy Warhols já apostavam ocasionalmente em canções demasiado longas e/ ou repetitivas, aqui esses momentos não são a excepção mas o cenário habitual, tornando-se cansativos e testando a paciência dos ouvidos mais tolerantes.
Na faixa de abertura, “Colder Than the Cold Winter Was Cold”, anuncia-se, em pouco mais de um minuto e com algum sentido de humor, que este disco é um “pedaço da História”, contudo o aviso logo se revela como uma piada de mau gosto quando a primeira canção, “Love is the New Feel Awful”, envereda por territórios de um rock alternativo algo genérico que se torna enfadonho e redundante ao fim de cinco minutos, mas que infelizmente dura quase dez.
Pior, no entanto, é o último tema do disco, “A Loan Tonight”, ainda mais longo e fastidioso, que prova que o experimentalismo nem sempre gera bons resultados e é sério candidato a pior composição de sempre do grupo. Durante o resto do álbum, o nível qualitativo não chega a descer tanto, mas se já seria desapontante enquanto conjunto de lados-b é-o ainda mais por se tratar de material inédito.
“Smoke It”, o primeiro single, é provavelmente a canção mais tipicamente Dandy Warhols, mas fica muito abaixo de singles anteriores e tão contagiantes como “Get Off”, “Everyday Should Be a Holiday” ou “The Last High”. “The New Country” e “All the Money or the Simple Life Honey” proporcionam uma estafada mistura de country e indie rock, “Did You Make a Song With Otis” é um interlúdio dispensável e “Easy” e “There is Only This Time” são curiosos esboços de canções que não deveriam ter passado das sessões de gravação.
“Odditorium or Warlords From Mars” não chega a ser um desastre total porque os Dandy Warhols ainda oferecem aqui alguns bons momentos, casos de “Holding Me Up” e “There is Only This Time”, caracterizados por traços de psicadelismo e melodias cativantes que os aproximam dos temas de “The Dandy Warhols Come Down”; ou “Everyone is Totally Insane”, um apelativo episódio pop de tempero new wave que não destoaria no disco anterior, “Welcome to the Monkey House”.
Lamenta-se o passo em falso e desejam-se as melhoras, porque não é com álbuns deste calibre que vão ficar para a História. 2.5/5
Se falarmos em “Funeral”, evocamos automaticamente Arcade Fire, certo? Bem, não só, mas também…
“Funeral” é igualmente o nome do primeiro single do álbum de estreia desta Band of Horses, que não é constituída por puro-sangues lusitanos mas sim por um grupo de rapazes americanos, de Seattle, essa terrinha tão musical.
O seu primeiro trabalho discográfico conjunto, «Everything All The Time» é catalogado nesse bule heterogéneo da música indie, e contém faixas mais rock e faixas mais melancólicas e depressivas. «Everything All The Time» não é uma revelação arrebatadora, mas é um disco com algum interesse, sobretudo nas faixas mais intimistas como “I Go To The Barne Because I Like The Band Of Horses” e “St. Augustine”.
Entre um som adolescente amargurado e uma celebração de temáticas mais negras, a música dos Band of Horses dificilmente gerará ódios mas acho pouco provável que alcance a dimensão de “fenómeno”.
Em suma, trata-se de um disco agradável, sobretudo para os apreciadores do género. Aconselhável sobretudo para os primeiros dias de Outono, com a sua leve tristeza. 3/5
O grupo de Los Angeles é uma das grandes revelações do rock actual. Neste elogiado álbum, lançado em 2002, assim que superar o choque causado pelas vozes incendiárias da banda, a maioria dos ouvintes vai logo reparar na qualidade das músicas, compostas pelo cantor Alex Band com o guitarrista Aaron Kamin.
Produzido por Marc Tanner, com oito faixas mixadas pelo legendário Chris Lord-Alge, o disco traz uma visão amarga do amor e da perda, rejeição e redenção. O assunto favorito da banda é a área desmilitarizada entre dois corações humanos. Ao longo das faixas, os The Calling servem-se de suas maiores armas: a guitarra bem tocada e atmosférica de Kamin e a potente voz de Band. 3/5
Até sair Binaural, a banda foi de fracasso em fracasso. Já ouvi muita gente dizer que, na realidade, a banda nunca fez nada tão bom como o primeiro disco, Ten, de 1991, mas não acho que seja bem assim. O segundo CD, Vs, de 1993, é mil vezes melhor que o primeiro - a banda estava no auge de sua criatividade, e é difícil encontrar uma música menos que boa no disco, tendo destaque especial "Rearview Mirror" e "Rats".
As contradições que marcaram a carreira dos Pearl Jam iniciaram-se aí: mesmo com músicas estouradas no mundo inteiro, milhares de discos vendidos e um séquito de fâs que tinham com a banda uma relação quase mitológica - as capas dos discos das bandas, algumas letras, títulos de músicas e até de discos, impõem essa mitologia (quem iria imaginar que o primeiro disco se chamou Ten porque era o número da camisola de um jogador de basquete que eles gostavam?) - o grupo parecia fugir de tudo isso.
Os Pearl Jam adoptavam posturas anti-MTV (o número de videoclipes feitos pela banda podem-se contar pelos dedos), davam declarações anti-Rolling Stone mesmo aparecendo na capa da revista e, mesmo com dinheiro no bolso, insistiam em apostar na linha "estou-fodido".
Binaural, foi lançado em 2000 e representou a volta ao normal de Vedder, McCready, Ament e Gossard (fora a função de baterista, de alta rotatividade). Sem lançar um disco realmente bom desde Vitalogy, de 1994, eles tinham derrapado na curva, nos CDs No code (disco arrastado, repetitivo e chato) e Yield. Deram o melhor de si num CD gravado ao vivo e aqui voltam a mostrar do que são capazes.
O visual do disco, como não poderia deixar de ser, é dos melhores: trata-se de um digipack, com fotos belíssimas e uma caixa em separado separado. Os fâs da banda não têm do que reclamar: mesmo com os problemas enfrentados pelo grupo - devido às trocas na bateria, discos meio repetitivos, guerras com a Ticketmaster, os Pearl Jam mostravam que tinham vindo mesmo para fazer rock e nada mais.
Pela primeira vez desde Vitalogy, o som da banda estava realmente pesado, e os Pearl Jam já estavam, sem a menor vergonha, encontrando-se musicalmente com as maravilhas do punk-rock, da new wave e do rock dos anos 80 (especialmente U2 e Police, referências nunca assumidas mas sempre encontráveis nas melodias e arranjos de Vedder & cia.).
Nas letras, comentários irónicos, ácidos, amargos, românticos e por vezes um pouco pessimistas. Na caixa do CD, várias fotografias reforçam o ar etéreo e quase progressivo de algumas faixas 3.5/5
OsThe Strokes passaram pela prova de fogo do segundo disco. É mais ou menos isso que “Room on fire” sussurra aos seus ouvidos em mensagens subliminares durante toda a audição do álbum.
O medo do fracasso era tanto que, para não complicar, os cinco integrantes resolveram repetir a fórmula do primeiro disco, o incensado “Is this it?”. A gestação de “Room on fire” não foi fácil. Teve desde ameaça de rompimento até troca de produtor, passando por brigas e discussões em busca da melhor sonoridade que cada um achava que a banda deveria buscar.
O resultado foi um álbum uniforme, que não deixa nada a dever a “Is this it?”, mas também não acrescenta nada à carreira da banda 3.5/5
Uma grande injustiça com os Housemartins: apesar da melodia pop e com um lindo arranjo vocal, trazia uma letra amarga, que o público não entendia por ser cantada em inglês. Mas injustiças parecem sempre terem marcado este simpático grupo da pequena Hull. No começo foram rotulados de meras cópias dos Smiths.
Até havia uma certa similaridade nas vozes, mas as duas bandas seguiram caminhos diferentes. Após dois discos brilhantes - London 0 Hull 4 e The People Who Grinned Themselves To Death (que foi lançado em Portugal e trazia "Build"), separaram-se, mas não antes de deixarem um grande legado: a colectânea de compactos e de out-takes chamadas Now That's What I Call Quite Good. 3/5
1. I Smell Winter 2. Bow Down 3. Think For A Minute 4. There Is Always Something There To Remind Me 5. The Mighty Ship 6. Sheep 7. I'll Be Your Shelter 8. Five Get Over Excited 9. Everyday's The Same 10. Build 11. Step Outside 12. Flag Day 13. Happy Hour 14. You've Got A Friend 15. He Ain't Heavy 16. Freedom 17. The People Who Grinned Themselves To Death 18. Caravan Of Love 19. The Light Is Always Green 20. We're Not Deep